A quem você tem servido?

Começo esta reflexão, lembrando: Servir a Deus e ao próximo não é a mesma coisa que servir a determinados governantes, instituições ou “tiranos”.

Vale lembrar, no escopo de responder às diferenças entre serviço e servidão que existe uma obra de referência neste assunto –  o “Discurso da Servidão Voluntária”, escrito em 1548 por Étienne de La Boétie quando este tinha 18 anos. 

Pode-se dizer que a obra é uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados de “tiranos”.  La Boétie explica de que maneira as pessoas podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la; em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder. 

Aqui, se me permitem, vale elucidar que o Cristo não veio erigir uma religião, tão pouco erguer bezerros travestidos de líderes pomposos e sedentos pelo seu dinheiro e adoração.

Contudo, a religiosidade nos aprisiona, mas a verdade liberta (basta conhecê-LA).  Essa verdade é o Cristo. Tal afirmação não nega a importância das instituições, mas as coloca tão somente como servas de um propósito maior.

Todavia, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação, segundo o autor, consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação (instituições, empresas etc.), a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros.

Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus bajuladores, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida reiteradamente. Em suma, os que estão em volta do tirano são considerados os “menos livres” de todos, pois, se os outros indivíduos estão obrigados a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do mestre, escolhendo, com essa atitude, “livremente” a própria servidão.

Após essa introdução ao problema da servidão – e sua diferença para o serviço, também voluntário, mas libertador, lanço ao amigo leitor esta pergunta: A quem você tem servido?

Para facilitar a resposta, pode-se considerar que a história nos traz exemplos de que o grande problema é que as pessoas têm uma carência de referências. 

Todos têm uma necessidade de elementos concretos. 

As pessoas precisam de alguém para olhar.  E é por isso que o povo que está no deserto decide construir o bezerro supracitado. 

O povo entende que não dá para caminhar invocando uma divindade que habita em alguma luz inacessível/está no céu. As pessoas precisam de um lugar para esse “deus”, ídolo ou ícone. 

Não adianta dizer para as pessoas que Deus está em todo lugar, pois elas desejam um lugar-templo. O povo precisa materializar a sua experiência. 

Acho que essa é a grande virtude e a grande fraqueza do Evangelho de Jesus Cristo, pois a história clerical demonstra que construímos um modelo religioso à imagem de Cesar, e não à imagem de Cristo.

Se assim não fosse, então não estaríamos diante de líderes que acham normal terem um avião disponível pago pelo “dono da igreja”, uma vaga em estacionamento privativa, fiéis que o seguem cegamente, que cobram valores absurdos para compartilhar algo que lhes fora dado de graça. 

Líderes que querem garantir a sua liderança circunstancial e seus benefícios mesmo que para isso tenham de suplantar o caráter, a ética e a moral.

Líderes que desejam caminhar neste mundo com um séquito de súditos, ao invés de caminhar com irmãos, em igualdade.  

Líderes que, dependendo do interesse, valem-se da retórica para dar forma à hermenêutica (hermética) em uma exegese incompleta, parcial ou inexistente que lhes seja favorável.

Modelos de Liderança, enfim, nos quais lobos podem vestir pele de cordeiro…

Portanto, se você é líder e de alguma forma está se identificando com esse tipo de liderança, arrependa-se, humanize-se.

Se você é liderado e almeja seguir esse tipo de líder, liberte-se, humanize-se. , Pois muitas pessoas, infelizmente, escolhem caminhar com esses líderes, ainda que se sintam oprimidas, aceitando migalhas concedidas pelos trabalhos prestados em sua vazia servidão voluntária.

Deus se fez homem – humanize-se.  Faça o que Deus fez: saia do trono, esvazie-se, livre-se da glória, tire a capa, monte em um burrinho… Lave os pés dos outros. 

Pergunte-se: A quem tenho servido?

Ademais, se servirmos a Deus voluntariamente, reconhecendo que Ele se despiu da Sua glória para esvaziar-se em figura humana, se reconhecemos que ELE serviu, sofreu e morreu em nosso lugar, se cremos que ELE venceu a morte ao ressuscitar, nos reconciliando com o Pai, nos tornamos filhos do Eterno, passando a construir junto dEle o Seu reino de amor até que Ele venha… Se tudo isso é verdade para você, pergunte-se: A quem tenho servido?

Diego Malori (escritor, teólogo, advogado e entusiasta do tema liderança cristã)

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